Psicanálise

A psicanálise é um campo clínico e de investigação teórica da psique humana, independente da psicologia. Tem origem na medicina, foi fundada por Sigmund Freud e desenvolvida por ele mesmo e por alguns de seus leitores.

“Sofremos de reminiscências que se curam lembrando”, dizia Freud. Essa ideia  foi ampliada, abarcando a noção de reconstrução histórica. Ou seja, para pensar, simbolizar e subjetivar o inapropriado da própria história é preciso repetir, recolocar no presente aquilo que não pôde ter lugar psíquico em seu próprio tempo. Lembrar-se é, então, trazer à consciência, significando, re-significando e integrando.

Podemos dizer que o percurso de uma análise permite uma tomada de posse da própria história, dos próprios afetos e emoções. É um espaço de criação. E uma criação em análise equivale a uma ruptura da literalidade que reveste e obscurece um discurso ou um ato. Interpelar a literalidade é criar essa ruptura, interrogando-a. E isso vai muito além de descobrir ou explicar. O efeito desse processo é um Saber Fazer com.

Quem busca psicoterapia ou psicanálise?

O que realmente enseja essa busca são as dores na alma que dificultam a experiência de uma vida que se deseja viver. As demandas que nos chegam são inúmeras e absolutamente singulares, mas poderiam ser formuladas a partir de um “pano de fundo” mais ou menos assim: ‘”Eu sou desse jeito, estou fazendo as coisas desse jeito, mas não gosto de ser e de fazer assim, pois acho que seria mais feliz sendo diferente. Desconfio que você possa me ajudar a ser diferente, porque sozinho não consigo”. Além disso, na maioria dos casos, o paciente atribui a culpa pelo seu atual estado a outra pessoa. Ainda que de uma maneira disfarçada e, não raras vezes, inconsciente.

Essa maneira de lidar com o sofrimento, ainda que inconsciente, ou seja, o paciente não sabe o que está fazendo, é uma estratégia para livrar-se da responsabilidade do que se queixa. Nesse sentido, quando alguém nos procura, além de esperar que o ajudemos a tornar-se diferente, também espera que reconheçamos que o seu sofrimento é justificado e compreensível.

No entanto, o que o psicanalista oferece não se trata exatamente de compreensão. E isto, especialmente, porque sabemos que a pessoa já “se compreendeu” muito. Por vezes, demais. Como refere Nápoli, o paciente já estabeleceu nexos causais sobre o seu mal-estar, e, nesse sentido, o que quer é ter alguém que lhe diga: “Eu te entendo, você está certa e deve estar sendo muito difícil enfrentar tudo isso’.

Um analista sabe que essa posição não ajudaria o paciente, já que o tornaria compreensivo e cúmplice do sofredor. E de uma análise não é isso que se espera.

Ao ser confrontado com a incompreensão por parte do analista, o paciente se esforça para se fazer entender. Nessa tentativa, produz um novo saber sobre o que parecia óbvio, mas que, no entanto, para nada servia no sentido de diminuir o seu sofrimento.

Ao dizermos ‘Não, eu não faço ideia’ ou ao perguntar: ‘Como assim?’ ajudamos o paciente a duvidar e assim perceber a fragilidade das bases de sustentação do que até então lhe parecia tão sólido como justificativa de seu sofrimento.

Apesar de esse momento de uma análise ser libertador, também provoca angústia pela sensação de falta de direção. O peso das palavras e do sentido, que antes dava essa direção, não mais funciona. E é aí que o analista está. Caminha junto com o paciente, acolhendo tudo o que ali se produz, com vistas à construção de uma nova direção.

O analista acolhe a queixa, o sofrimento, o paciente. Acolhe não no sentido de “pegar no colo”, mas aceitando a demanda de ajuda como legítima, o sofrimento como real e se colocando à disposição para que o paciente faça o seu trabalho de análise. Sim, trabalhe, porque como diz Nápoli, quem de fato trabalha, no sentido estrito da palavra, é o paciente.

A nossa função é mais modesta: é de estar ali como presença que o instiga a continuar. Como um objeto que deve ser usado para que o trabalho aconteça. Este é o desejo de um analista: o de que uma análise se produza.