Sobre o que nos faz felizes… E a curva em “u” da felicidade

Tenho assistido vídeos de diferentes conferencistas sobre a famosa e mais longa pesquisa longitudinal que se tem notícia conduzida pela Universidade de Harvard.

O Estudo sobre o Desenvolvimento Adulto (Study of Adult Development, no original em inglês) começou em 1938, analisando 700 jovens entre estudantes universitários e moradores de bairros pobres de Boston. Seus estados mental, físico e emocional foram monitorados durante toda a vida. A pesquisa continua com mais de mil homens e mulheres, filhos dos participantes originais.

Uma das principais questões do estudo é: o que nos faz felizes?

O tema é bom demais para as letras fazerem silêncio por aqui.

Então, vamos dar uma passeada sobre o que tem nos dito a ciência sobre o tema. Para isso, dois grandes caras nos levam pela mão: Daniel Kahneman e Pedro Calabrez.

Como sabemos, a felicidade é uma construção complexa, ou seja, vários elementos compõe esse estado tão desejado, sendo UM DELES o sentir-se bem ou alegre.

Tomando, portanto, esse ponto de referencia – sentir-se bem ou alegre –, vejamos mais de perto essa complexidade.

Primeiro, é importantes compreendermos que essa sensação que experimentamos de que somos um eu unificado, não é como de fato “funcionamos”. Temos duas dimensões psicológicas: a primeira, um eu da experiência; a segunda, um eu das lembranças (Kahneman). Portanto, um eu experiencial e um eu projetivo (Calabrez).

O seu eu experiencial é esse aí que está lendo agora este texto – focado, assim espero. É o eu do presente, cujo ápice da experiência (de foco) tem a duração de poucos segundos. Já o eu projetivo é aquele que não está no agora. Como o próprio nome diz, projeta-se para o futuro e se lembra do passado. Como vemos, uma parte de nós vive e a outra pensa sobre o que viveu ou viverá.

Para Calabrez, viver no presente e pensar sobre a vida, portanto, do ponto de vista psicológico, são coisas diferentes. Aqui está o ponto.

O que faz o eu projetivo (o que pensa) feliz, não necessariamente faz o eu experiencial (o que vive) feliz.

O eu projetivo se alimenta, como não poderia deixar de ser, de histórias: tanto as passadas como as futuras. Desse modo, experimenta a felicidade de duas maneiras: 1) Por meio de conquistas, que é a história contada sobre o que já aconteceu; 2) Por meio de objetivos, que é a história das experiências por vir.

Já o eu experiencial é aquele que não está nem um pouco preocupado em pensar. Ele quer VIVER. Aliás, esta é a base da ideia de engajamento, tão forte na psicologia.

O engajamento é a experiência de estar no aqui e no agora. E que só é possível quando existe equilíbrio entre os desafios que enfrentamos e as competências que temos para esse enfrentamento. É o engajamento que permite o tão falado estado de flow.

Então, estar de fato no presente, no aqui e agora, vivendo o momento, é o que possibilita a felicidade desta outra “porção de eu” que chamamos experiencial.

E o que a curva em “u” da felicidade tem a ver com isso?

A curva está no ponto máximo quando temos nossos 17 ou 18 anos porque nosso eu projetivo tem muitos objetivos futuros.  Depois, a curva vai diminuindo até alcançar o ponto mais baixo entre nossos 40 e 50 anos. Isto porque, nessa fase, o eu projetivo já não se alimenta de tantos “por vir”. A final, muitas coisas já foram realizadas e algumas das que não foram não mais serão. Daí a chamada “crise da meia idade”.

Um pouco mais adiante, a curva começa a subir. Ou seja, uma pessoa idosa seria mais feliz do que alguém com 35-40 anos. Por quê? Porque aquela zona do “não fiz muito até aqui” ou “já conquistei o que queria até aqui. E AGORA?” começa a ser deixada para trás, dando lugar a uma nova fase que é de liberdade misturada com tranquilidade . Não há mais a necessidade de provar algo a alguém: “Fiz o que poderia fazer. Criei (ou não criei) filhos, fui a esposa (0)(namorada, companheira,) que era possível, a amante possível, a dona de casa possível, a profissional possível, a amiga possível. E é isso aí”. A ordem interna é viver o presente. Ou seja, nessa fase, é o eu experiencial que experimenta satistação.

Contudo, apesar desses nossos dois “eus” alimentarem-se de diferentes experiências para se sentirem felizes – o que torna ainda mais complexa a noção de felicidade –, pesquisas atualíssimas, como a citada no início do texto, aponta uma única variável capaz de proporcionar estado de felicidade aos nossos dois “eus”: a QUALIDADE DOS NOSSOS RELACIONAMENTOS.

Sendo assim, se temos lições para aprender, ou lembrar, já que esses saberes estão dentro de nós, as principais são:

1 – Não vamos deixar nossas projeções (futuro) e lembranças (passado) impedirem o nosso estado de presença. A vida precisa ser saboreada agora.

2 – Vamos investir nas nossas relações. De preferencia nas de carne e osso, porque são as que permitem a produção da oxitocina, o famoso hormônio do amor. É a presença física, o abraço, o beijo, os olhos nos olhos que garantem esse nível hormonal gerador de prazer.

É isso. E que a gente consiga!

Referências:

Calabrez, Pedro

Kahneman, Daniel

Waldinger, Robert

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