TÉDIO: a assombração que nos espreita

No sec. XVII, o filósofo francês Blaise Pascal, especialmente em A Miséria do Divertimento, escreveu sobre o fato de que só o divertimento nos salva do tédio. Disse também que, por outro lado, é justamente o que nos impede de buscar um meio de nos livrarmos de forma mais contundente dele (do tédio!).

Naquela época já se havia compreendido que, sob certo aspecto, o ser humano é estruturalmente frágil. Experimenta uma sensação de incompletude que dificulta vivenciar estados de felicidade duradouros. Somos assim: a experiência de completude e satisfação com o que alcançamos tem mais ou menos a duração de um instante. Em seguida, volta a faltar. O que, às vezes nem sabemos, mas falta.

O tédio, por sua vez, é aquela sensação de que a vida é meio vazia, meio desencantada, ‘meio nada’. Junto com essa sensação, tem uma voz(inha) interna que sussurra que essa carência de sentido na vida precisa ser suprida.

Heidegger, filósofo que se debruçou sobre o tema do tédio, defendia que se mergulhássemos profundamente nesse sentimento, buscando o sentido das nossas vidas, tal sentido se desvelaria para nós. Com todo(ooo) o respeito, discordo. Acho sim que as pessoas podem construir um propósito para as suas vidas, mas percebo que quando buscam, aliás, “focam” (para usar a palavra do momento) em buscar o tal Grande Sentido da Vida, têm igualmente grandes chances de se atrapalhar. Ficam meio que submersas nessa busca e perdem de vista o fato concreto de que há muitos sentidos na vida. E que, aliás, as coisas que já alcançaram são suas fontes de significado: família, trabalho, amigos, hobbies. Isso tudo – ou algumas dessas coisas – pode ser mais do que suficiente.

Mas justamente aí está a questão. Voltemos à frase, agora com um ponto de interrogação: Isso tudo pode ser mais do que suficiente?

Para muitas pessoas, podia sim, até pouco tempo atrás. Atualmente, o que tenho percebido é que o tédio, como sendo essa sensação de desencantamento, tem maior incidência entre nós, fundamentalmente, porque as pessoas têm experimentado a forte sensação de que não podem ser “comuns”. De que ser comum é viver uma vida “desgourmetizada”, e isso é entediante. Claro que essa não é a única razão do tédio. O tema é muito mais amplo, mas estou fazendo apenas um recorte do assunto.

Assim, muitas pessoas têm acreditado que suas vidas têm de ser incríveis sob algum aspecto. Como isso não é algo fácil, nem muito real na maioria das vezes, quando a pessoa entra em contato com a trivialidade, entendia-se. Desencanta-se. É como se a seguinte pergunta o espreitasse: A vida é só isso?

Nem precisaria ser dito (mas vou dizer!), que isso tudo tem forte relação com a tecnologia da informação, com a hiperconectividade e com a hiperexposição em redes sociais. O que nos leva ao problema da COMPARAÇÃO como forma de definir a nossa medida de valor.

Sobre essa comparação, tudo bem, porque faz parte da condição humana. Em maior ou menor grau, consciente ou inconscientemente, sempre vamos nos comparar. Seja fisicamente ou em relação a nossa inteligência, capacidades, salário.

O nosso ego, por meio de um mecanismo chamado validação, vai buscar saber se a nossa escala de valores está de acordo com aquilo que o mundo – entendido como a maioria das pessoas – está valorizando. Claro que quanto mais progredimos na nossa caminhada evolutiva, menos precisamos dessa validação que considera a escala de valores dos outros. Mas, como dito acima, em algum grau, sempre vamos nos comparar.

A questão é que esses “outros” com quem andamos nos comparando tornaram-se cada vez mais ideais e platônicos. Fora da realidade, em última análise.

O ego, por sua vez, continua usando o mecanismo de validação que sempre usou. Ou seja, comparando-se. Então, veja a trapalhada: os seres com quem se compara, não existem. São modelos de sucesso (em todos os âmbitos da vida) que nos são enfiados goela abaixo como se fossem reais. Só Que Não! São projeções editadas, customizadas, travestidas de verdade. E suas vidas “gourmetizadas” e desentediadas são, na esmagadora maioria dos casos, mera ficção.

Mas o que, a final, Blaise Pascal, o filósofo do sec. XVII que citei na primeira linha do texto tem a ver com tudo isso?

Quando Pascal falou em divertimento para espantar o tédio, ele se referia às estratégias que usamos para suavizar a falta de uma condição sustentável quando somos obrigados a enfrentar nossas fragilidades existenciais (que não são poucas!). Okay, tudo bem com isso. Ele mesmo sustentava que, em certa medida, o divertimento é necessário. Mas esse mesmo cara disse, quatro séculos atrás, que o futuro seria tomado por lazer, barulho e juventude. Aliás, não poderia ter acertado mais em cheio. E é aqui que me parece estar a nossa grande trapalhada: a tentativa de buscar no divertimento – entendido como tudo o que nos tira o pé da realidade –, não só uma distração, mas também a própria felicidade, enquanto um mandamento, uma ditadura. E o pior, a partir de padrões ficcionais.

Não vai funcionar. Primeiro, porque a felicidade acontece quando não estamos focados em encontrá-la. Segundo, porque em um mundo cada vez mais virtualizado, onde as referencias são “homões e mulherões da porra”, com suas vidas incríveis, o nosso destino será, lamentavelmente, assombrado pela frustração e pelo tédio.

A saída para tudo isso? Não a tenho! Mas estou em busca. E estar em busca, de certa forma, me salva.

Referências:

Ser e tempo (Martin Heidegger)

Pensamentos (Blaise Pascal)

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