Estamos condenados a ser livres. Como assim?

A pergunta é referencia à consagrada frase de Sartre segundo a qual “Estamos condenados à liberdade”. O que Sartre quis dizer com isso, afinal? Aparentemente condenação e liberdade são condições muito contrastantes para andarem tão juntas.

Apesar de o tema possibilitar densas e infindáveis discussões, está longe de ser a nossa intenção aqui. Este pequeno texto é só uma pausa. Um respiro no meio do dia. Uma breve reflexão. Talvez com efeitos, talvez não. Vamos a ele.

Sartre foi um cara sensacional. Seu tema central foi a condição humana e a sua defesa radical era a liberdade. Esses temas foram a raiz do existencialismo, corrente filosófica que teve início no séc. XIX com outro eminente filósofo chamado Kierkegaard. Não vamos nos aprofundar na filosofia desse outro grande cara, mas vale saber que escreveu especialmente sobre a aparente falta de sentido da vida, assim como sobre a nossa busca e possibilidades de sair do tédio existencial a partir de escolhas livres.

Aqui está o ponto da reflexão. É grande a quantidade de pessoas angustiadas diante das suas possíveis escolhas. Refiro-me a escolhas nos mais diferentes âmbitos da vida: casar e não casar; ter ou não filhos; separar ou não; entre um e outro curso; um e outro trabalho; tempo para isto ou para aquilo; estar com alguém ou permanecer só. Também percebo angústia em tomar atitudes menores dentro desses âmbitos. Faço assim ou faço “assado”?

Mas porque nos angustiamos tanto diante das possibilidades? Num primeiro momento a resposta parece simples: porque queremos “acertar”. Aliás, essa ideia diz respeito ao nosso desejo ardente por garantias, o que é outra grande fantasia do ser humano. Mas esse não é o nosso tema aqui e, por sinal, já foi objeto de texto anterior.

Voltemos à Sartre para entendermos a tal angústia. Para ele, o homem não é nada mais que seu (próprio) projeto. É dele a famosa ideia de que a existência precede à essência, o que significa dizer que o homem primeiramente existe e nesse processo de existir e de tornar-se isto ou aquilo, vai construindo a sua essência. Claro, essa construção seria, para ele, mediante a liberdade. Mesmo quem decide não escolher está ai fazendo uma escolha. Ou seja, sendo livre.

É nesse caminho que podemos compreender a angústia que nos toma frente ao ato de decidir. É da liberdade que a angústia deriva. Poderíamos até mesmo nos referir a uma angústia da liberdade”. Na medida em que somos livres, isso implica a total responsabilidade por todos os efeitos de uma determinada escolha.

O que ocorre, não raras vezes, é que frente a angustia de nos sabermos livres, escondemo-nos dessa liberdade, nos iludindo de que não temos essa consciência. Assim, tentamos enganar a nós e aos outros sobre a nossa condição de vítimas da vontade alheia, de Deus, do destino, ou seja lá de quem for, desde que não seja da nossa.

Essa “enganação” não se sustenta. Sabemos em alguma medida, em algum nível e lugar dentro de nós que é conosco. Mesmo que a vida tenha seus mistérios e possa nos trazer (e levar embora) algumas respostas, o que vamos fazer com elas é de responsabilidade única e exclusivamente nossa.

A origem da angústia em escolher passa por outra questão que é a consciência do nada (conceito de nadificação), que significa o fato que estarmos escolhendo baseados em nós mesmos, sem que nada preceda essa escolha. Poderíamos falar no ato de nadificação a partir de Sartre, mas o texto seria sem fim.

Voltando então à pergunta inicial, me parece que estamos condenados já que não escolhemos existir, assim como não escolhemos nossa condição de sermos livres. Contudo, em existindo, somos responsáveis por tudo o que decidimos, assim como pelas suas consequências. Daí a nossa liberdade, assim como a nossa condenação.

Referências:

O Ser e o Nada (Jean Paul Sartre)

O Existencialismo é um Humanismo (Jean Paul Sartre)

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