Navegando no mar das incertezas ou aprisionado no território do medo?

Uma das maiores buscas do ser humano é por certezas. Há quem diga que é, entre todas, a maior e mais constante das nossas buscas. E, de fato, nos mais diversos âmbitos da vida, essa é a nossa pretensão: estarmos certos de nossas escolhas e decisões. Tanto é assim que muitas vezes permanecemos paralisados sem tomar atitude alguma porque queremos desesperadamente ter certeza. E junto com a certeza, a garantia de que estamos seguros.

Esse é o ponto: a sensação de segurança que as “certezas” parecem proporcionar.

O tema não é novo, muito pelo contrário, foi objeto de estudo desde o budismo, passando pelo estoicismo, epicurismo até a filosofia de Nietzsche. E mais atualmente é objeto da ciência, que tem avançado muito em todas as pesquisas que se referem à busca pela felicidade.

Sim, porque a necessidade de certezas passa – ainda que de forma equivocada – pela garantia de que determinada atitude ou decisão nos trará a segurança da felicidade. Embora o conceito de felicidade seja um constructo complexo, deve ser entendida aqui como prazer, satisfação, bem-estar.

Mas porque essa busca por certezas é equivocada?

Em primeiro lugar é importante sabermos que a ideia de só haver segurança na certeza é uma fantasia. Existe outro caminho para sentirmos um nível de segurança mais consistente do que esse. Além disso, essa ilusão da certeza nos causa grande instabilidade emocional. Ficamos ansiosos quando duvidamos das nossas certezas e angustiados quando percebemos que a única certeza que nos resta é a de que não adianta buscarmos certeza alguma.

O ponto central de tudo isso é o seguinte, pensem comigo: se precisamos de certezas é porque temos medo. Buscamos desesperadamente tudo o que possa nos dar sinais de que estamos certos sobre determinada escolha porque morremos de medo de errar. Então, aí está o equívoco: não necessitamos de certezas, até porque são sempre falhas, precisamos, isto sim, trabalhar, elaborar e ressignificar os nossos medos. Esse é o caminho para experimentarmos um tipo de segurança mais consistente.

Mas, como temos lidado com nossos medos?

Ao longo da história da humanidade, a forma clássica de se lidar com o medo (neste caso, de se fugir do medo) tem sido a busca por religiões, crenças e convicções. Dentro das convicções, inclusive, o pensamento positivo. Esses caminhos apresentam uma série de “certezas” que podem até nos ajudar por algum tempo e especialmente com algumas questões da vida, mas estão longe de resolver ou mesmo aplacar de maneira eficiente a nossa insegurança. Até porque o apego a uma crença é, quase que invariavelmente, alicerçado no próprio medo. Aliás, no medo e na culpa. Mas esse é outro tema.

Então, se crenças e convicções não resolvem a questão do medo, qual caminho seguir?

Primeiro precisamos saber de que medo se trata. Sabemos que o tempo desse afeto chamado medo é o futuro. Tememos o que está à frente. Justamente lá, no tempo do desconhecido, consequentemente da incerteza e da insegurança.

Mas o que poderá haver lá (no futuro) que precisamos tanto controlar?

Há quem defenda que o medo é sempre da morte, e realmente é. Apesar de não se tratar exclusivamente da morte física. Aprofundarei esse tema em texto futuro. Mas vamos tomá-lo (o medo) aqui como a dor de não suportar algo. Porque esta é uma das principais questões envolvidas no medo: a ideia da nossa insuportabilidade relativamente a alguma situação futura. Esse medo, apesar de ser fruto da nossa imaginação, está profundamente enraizado em nós.

Sendo assim, o que fazer com essa sensação tão nossa?

Assim como o medo é nosso, já que todos nós o experimentamos em alguma medida, é nosso também o tesouro mais precioso que nos possibilita lidar com ele: a conscientização. Temos a possibilidade de tornarmos consciente e ressignificarmos questões antes obscuras. Então, o ponto é este: o mar das incertezas existe e navegamos nele todos os dias, queiramos ou não. A boa notícia é que ele não precisa ser assustador.

Não necessitamos de tanta segurança como supomos existir nas certezas. O que realmente precisamos é entender profunda e verdadeiramente que não importa o que a vida nos apresente, nada será insuportável.

Não estou dizendo com isso que não teremos dores lancinantes. Se ainda não passamos por elas, ainda passaremos. E se já vivemos grandes angustias, possivelmente ainda viveremos outras. O fato é que se necessitarmos da certeza de que nada de ruim acontecerá para então nos sentirmos seguros sobre o que quer que seja, então continuaremos aprisionados no território do medo.

Seguros estamos, ou pelo menos mais seguros, quando sabemos internamente e com todo o nosso ser, que a impossibilidade de suportar uma situação é um monstro sombrio, sem consistência.

Se, como eu disse, o tesouro mais precioso é o da conscientização, o que vem logo após é o tesouro da nossa responsabilização. Cada um de nós tem, em potência, a possibilidade de sair da escuridão.

Então, aproxime-se dos seus medos, olhe para eles, fale neles, trabalhe-os e dê a cada um desses monstros imaginários, a inconsistência que realmente têm.

Podemos muito mais. É nossa responsabilidade.

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