Propósito de vida virou moda?

Essa ideia de encontrar um propósito de vida parece mesmo modismo. E o processo de encontrá-lo, em alguns casos, parece assemelhar-se ao trabalho de um investigador que busca uma chave superpoderosa que abrirá todas as portas, dizimando dúvidas e clareando tudo pelo caminho. Será mesmo assim? Além disso, encontrar uma resposta tão salvadora em meio aos seus emaranhados emocionais, hábitos adquiridos, pressões coletivas, demandas conscientes e inconscientes não parece tarefa fácil.


Certo, fácil até pode não ser, assim como também não é o remédio para todos os males. Mas é a via régia para uma vida infinitamente mais significativa. E é por isso que tenho me dedicado a estudar e a comunicar esse tema.

Nós, homens e mulheres do século XXI estamos, cada vez mais, buscando na virtualidade uma saída para nossos estados de solidão e sentimento de vazio existencial. Procuramos no mundo virtual um substituto para relações afetivas consistentes E como nos habituamos à possibilidade de acessar tudo muito rapidamente, queremos cada vez mais prazeres imediatos.

A questão é que prazeres imediatos são descartáveis. E como são descartáveis, ou seja, vem e vão rapidamente, começamos a nos esvaziar. Sim, esvaziar porque tiramos de nós mesmos a possibilidade de alimentar e enriquecer nosso mundo interno. O que só acontece por meio das relações e experiências reais, sólidas, consistentes. Aquelas que exigem empenho, sabedoria, avanço.

Muitas vezes escuto de pacientes, clientes e até amigos, frases nessa linha: “Não vejo sentido em mais nada, ainda que não me falte bens materiais. Tenho família, trabalho, sou bem relacionado, mas me sinto sozinho mesmo assim. Não tenho tesão para nada. Não tenho projetos”.

Esse recorte mostra o mal-estar de alguém sem consistência íntima. Mergulhado no vazio por falta de uma razão de ser. Falta uma causa, um sentido a realizar, uma pessoa. Um endereçamento.

Sabemos hoje que não somos criaturas que buscam somente satisfazer pulsões e instintos ou, dentro de alguns limites, apaziguar id, ego e superego. Também não somos simplesmente o resultado de condicionamentos. Ao contrário, somos SERES EM BUSCA DE UM SENTIDO. Quando essa busca, por alguma razão se esgota, se esvazia, o mal-estar (das mais diferentes formas) ganha corpo. Literalmente: ganha o corpo. Daí todos os tipos de manifestações sintomáticas.

Essa eterna busca de sentido é bem exemplificada por Jorge Ribeiro (Gestalt-terapeuta), em uma palestra proferida no Curso de Psicologia do Centro de Ensino Superior de Brasília: Depois de tempos escutando seu cliente, Ribeiro ouviu a seguinte frase: Doutor, procurei o senhor porque minha vida não tem sentido! “O terapeuta, olhando profundamente para o seu cliente, respondeu-lhe: “Não é que sua vida não tenha sentido. É que o sentido da sua vida é não ter sentido.”

Se assim é, o sentido da vida está no viver. E viver é buscar um sentido. Aqui está a importância da construção de um propósito.

Existe uma relação muito estreita entre o nosso propósito de vida e o nosso índice (interno) de felicidade. Não vou me aprofundar no conceito de felicidade, por ser um constructo complexo. Vamos toma-la aqui como bem-estar psicológico, sentido de existência, satisfação com a vida, paz e prazer.

Segundo pesquisas atualíssimas de Martin Seligman, um dos pais da psicologia positiva (ciência que estuda a felicidade/bem-estar), cinco elementos constroem a nossa felicidade: 1) Emoções positivas: prazeres que podem ser obtidos por meio de motivações extrínsecas, ou seja, de fora, como bens materiais, dinheiro, comida, drogas, sexo, etc.; 2) Realização: a concretização de coisas importantes nas nossas vidas; 3) Relações positivas: relacionamentos de qualidade; 4) Engajamento: quando você está entregue por inteiro a uma atividade, a ponto de não perceber o tempo passar. 5) Propósito ou sentido: Sentir que o que você faz tem sentido e é maior do que você mesmo e do que suas necessidades.

Percebam que os três primeiros – emoções positivas, realização e relações positivas – podem ser extrínsecos, ou seja, vir de fora. Já o engajamento e o propósito são nada mais nada menos do que os combustíveis mais poderosos de ativação da nossa motivação intrínseca. Aquela que traz sentido à existência.

Portanto, definitivamente, a resposta ao título do texto é não. Propósito não tem a ver com modismo. Aliás, esse entendimento sobre a importância do propósito esteve sempre presente em nós. E para mostrar claramente isso, termino esse texto compartilhando abaixo frases ditas por alguns dos maiores mestres, pensadores, filósofos, pessoas com alto nível de realização, em diferentes momentos da nossa história.

Sêneca (04 a.C. – 65): Nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde ir.

William Shakespeare (1564-1616): Todas as graças da mente e do coração se escapam quando o propósito não é firme.

Goethe (1749-1832): Uma vida sem propósito é uma morte prematura.

Osho (1931-1990): A vida é simplesmente uma oportunidade, uma abertura. Depende do que você faz dela. Depende de que sentido, que cor, que canção, que poesia, que dança você dá à vida.

Propósito é uma construção. Mãos à obra!

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